sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Em jeito de "nim"

Vir aqui tem um sabor de “nim”. Nem “não”. Nem “sim”. Assim. Por enquanto.
Vir aqui significa relembrar tempos (áureos ou pseudo) da Educação e Formação de Adultos, em que esta estava desenhada de acordo com moldes internacionalmente reconhecidos. Os verdadeiros costureiros desta arte ainda continuam a moldar o seu trabalho e a ajustá-lo.


Por cá, extinguiu-se a profissão e a arte. Fechou-se um Portal que se desejava de “Novas Oportunidades” para deixar um postigo semi-aberto.
A instabilidade das condições climatéricas não abona … O vento, embora por vezes fintando o sol, limita-se a sacudir e a desarrumar as nuvens de um lado para o outro em vez de empurrar a porta de uma vez e deixar fluir as tão desejadas “novas oportunidades”. Já agora, oportunidades novas também. O País agradece(ria). Nós (mesmo sem “C”) também. De resto, depois da extinção ficámos mesmo apenas “nós”: as Equipas sem identidade e os candidatos “pendurados” numa plataforma que, apesar da designação, também não tem feito “seguir”.
Persiste, assim, um cenário cinzento. Em consonância com o tempo para lá da janela. Alguns costureiros tentam urdir uma manta mais macia do que a que se foi deteriorando e que acabou por romper há dois anos. Não por falta de uso, mas por falta de cuidado da parte de quem mais pode (porque quem quer, continua a querer – a vontade, no entanto, nem sempre é suficiente para arrancar a força anímica do coma).
E esses costureiros que amam a sua arte tentam seguir respeitosamente os passos da matriz que o chefe de linha (d)escreveu e emanou em tom de procedimentos enquanto vão ingerindo moléculas de oxigénio das orientações metodológicas que vão pingando gota a gota…

quinta-feira, 27 de Junho de 2013

CQEP: Sonhos, numa noite de verão...

Amanhã, abrem-se as portas da corrida aos CQEP. 

Como outrora, partiremos em busca de um tesouro perdido, amargurados com tantas promessas ocas, mas cheios da vontade de erguer, de novo, castelos de eficácia e proficiência, certos que estamos da nossa resiliência. 

Passámos as provas do deserto vazio, caminhámos descalços na areia quente, sob um sol ardente, sem qualquer gota de informação, depois da dor inominável de ver partir os nossos companheiros de infortúnio, aqueles que tinham construído connosco, pedra a pedra, os palácios onde a magia acontecia. Guardámos as sete chaves connosco, podiam ser necessárias, mas vimos as paredes ruir, já longe no caminho, enquanto se enchiam, à força, as masmorras do desemprego.
Agora, já sem fôlego, chegados à beira de um precipício que parece marcar o fim de qualquer coisa, ainda com a visão turva pelo esforço da caminhada, sem saber se é miragem ou se é mesmo realidade, do outro lado da margem, aparece uma vegetação que promete vida e um caminho ladeado de pedras. 
Numa epifania joyceana, surge, evanescente, a descoberta de que ainda é preciso construir a ponte para alcançar o outro lado. 
Será que é possível? Conseguiremos alcançar essa margem onde parece haver vida? Quantos ficarão pelo caminho nesta travessia? 
Haja ou não miragem, é pelo sonho que vamos, porque, quaisquer que sejam as pedras, elas podem servir para construir castelos.
Aos que se vão lançar nesta nova aventura, aos que acreditam em elfos e duendes, aos que querem um mundo onde a magia possa acontecer, os meus agradecimentos e desejos redobrados de sucesso.

terça-feira, 19 de Março de 2013

QUEREMOS TRABALHAR

(Este texto faz parte do Relatório de Atividades 2012 do CNO D. Inês de Castro, no capítulo Reflexão Final.)

O Centro Novas Oportunidades D. Inês de Castro de Alcobaça fechou as portas no dia 31 de janeiro de 2013. Este será, portanto, o último relatório de atividades apresentado. Fica uma estranha sensação de esvaziamento que resulta do que aconteceu, de facto, ao longo do ano de 2012. 

Primeiro, iríamos organizar-nos para 8 meses de trabalho. Depois, soubemos que poderíamos continuar até dezembro, se houvesse verba disponível no financiamento aprovado de janeiro a agosto, mas sem formadores. E, ainda assim, estas “informações” chegaram ao jeito de trends, que procurámos confirmar junto de parceiros de função, pois havia, sobretudo, um grande vazio de informação. 
Mantivemos o barco a navegar até chegar à costa, atordoados com o silêncio ensurdecedor que nos rodeava. 

E aqui estamos agora, ancorados ao futuro, com amarras do passado. 

Ora falemos desse passado: 
Foi um tempo essencialmente de ganhos, obtidos sobretudo na relação com o outro. Aqui, entenda-se “outro” como adulto ou colega, formador ou técnico, diretor de CNO e/ou de Escola, ou dirigente da ANQ / ANQEP. Essa relação trouxe-nos mais-valias de todo o tipo: crescimento interior, descobertas científico-pedagógicas, evolução das organizações, benchmarking e partilha; formámos gente e recebemos, em retorno, a convicção de o estarmos a fazer bem. Certificámos com a garantia de qualidade conferida por avaliações externas e autoavaliações internas permanentes. 
Foi um tempo de excelência, já reconhecido internacionalmente, embora, por razões assumidamente ocultas, ainda esteja no estado “em reconhecimento”, em Portugal. Cultivámos a paixão pela Educação e Formação de Adultos, nas suas diversas modalidades, aprimorando, em cada experiência havida, o desenvolvimento da atividade seguinte. O trabalho desenvolvido no nosso Centro Novas Oportunidades, e na maior parte dos CNO deste país, ficará na memória de quem o conheceu de perto, como uma mais-valia inquestionável. Tão valiosa é essa memória do passado que com dificuldade se projeta no futuro. 

Ora falemos desse futuro: 
Um novo paradigma parece estar a projetar-se daqui para a frente. Ainda envoltos em névoa densa, mas cheios de promessas primaveris, ouvem-se arautos da mudança a anunciar outros caminhos. “Promessas, leva-os o vento” e Eolo, disfarçado de decisor político e financeiro, anda a espreitar em cada esquina da nossa organização social e económica. Sentimos que devemos estar atentos, para não perdermos “novas viagens”, mas até mesmo a esperança que haja “novas partidas” desvanece, com as cruéis voltas do tempo, em dias, semanas e meses, feitos de poeira seca neste deserto de conjunturas, desgastando os mais valorosos. 

Mas a paixão está viva e precisa de expressar-se. Dêem-nos telas, que as pintaremos com as cores do crescimento. Dêem-nos a pedra e dela libertaremos o Prometeu que se esconde em cada um. Dêem-nos violinos e seremos os maestros das sinfonias identitárias e coletivas. Dêem-nos as penas para escrever, que invocaremos as musas do Olimpo e de outros Céus, ainda por descobrir, e com elas cantaremos, formando em toda a parte, se a tanto nos ajudar o engenho e a arte… 
Venham as artes e os ofícios, os palcos, feiras e museus, venham escolas e alunos, empresas, centros e comunidades, venha tudo o que está por fazer e venham todos os que querem meter mãos à obra! 

Queremos trabalhar! 
 

terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Le Roi est mort...

Foram tantas as marés que não as consigo contar!
Num barco construído com o suor de cada um dos elementos da tripulação, a viagem fez-se.
E repetiu-se, vezes sem conta, tantas quantas as necessárias, para que quem nos abordasse pudesse chegar a bom porto, na ilha das aprendizagens, em jornadas de auto-reflexão e de descoberta.

Foram tantas as noites estreladas, em tempos de acalmia, a olhar com orgulho para o céu, enquanto o caminho se formava, à frente da proa, em rasgos de água serena! Tantas as noites quantos os dias luminosos, feitos de auroras boreais, austrais e outras, cheios de reflexos do brio da existência humana, em vibração constante e em permanente transformação. 

A vida aconteceu, neste barco, com risos e lágrimas, cantos e palmas; houve cheiros de chás em convívios de inverno e sabores de frutos em cocktails de verão, houve encontros e desencontros, seminários, jornadas e concertos de poesia; houve trabalho árduo e rotinas prazerosas. Houve dúvidas e questões, debates e propostas, discussões animadas, partilhas e contrapontos, máscaras gregas, magias...e retortas de alquimistas...


Mas, a partir de Agora, o barco vai ficar atracado no cais. Para sempre. 
Porque eles decidiram. 
Numa azáfama desvitalizada, os tripulantes retiram lembranças, certificados de prata, tesouros e pérolas de diplomas, cofres de documentos preciosos, processam o transbordo dos passageiros, contrariados, sem qualquer assunção clara de que haja alguma real solução à vista.

Em desespero de causa, enrolam as amarras caídas aos postes do cais, num último gesto de entrega e de súplica, resistem ao apelo das profundezas do oceano, do canto das sereias e do pó de água na crista das ondas que se agigantam por detrás dos faróis norteadores, em convites de deslizes e superação egoica.
Sabem que, a partir de Agora, podem cair no abismo do esquecimento e da indignação, sujeitos que ficam às garras do desemprego, sem barco para viajar. Começam a duvidar de si e dos outros, deixando-se embalar em cantigas de diz-que disse, acusando parceiros e amigos, disparando em qualquer direção, enquanto, na sombra, eles preparam implacáveis decisões de prazos impreteríveis. 

Desta história, ainda não reza a História, havendo até quem pense que seria melhor que desaparecessem  rosários e terços de oportunidades, dando ouvidos às vozes da vergonha que agora sentem por terem vivido tal paradigma.

Marinheiros, ACORDAI!

Em perigos e guerras esforçados, 
Mais do que prometia a força humana,
a obra fez-se e aconteceu! Fomos descobridores de terras novas e, um dia, seremos considerados precursores, no mundo da Aprendizagem ao Longo da Vida. Só quem fez a viagem lhe pode dar valor, por ter percebido o seu duplo caráter criativo e transformativo, por ter feito da partilha uma estratégia de formação, por ter valorizado saberes adquiridos in and out of the box. 
Assim, o espalharei por toda a parte, 
Se a tanto me ajudar o engenho e a arte (Os Lusíadas (1572). 

Mesmo que eles, eles, não saibam nem sonhem....que, como nos ensinou  Gedeão, o sonho comanda a vida e que nas ilhas de aprendizagens, sempre que os barcos param, há casulos de mariposas à espera do tempo certo. 

... vive le Roi!





terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

De Olhos Bem Abertos


Tom e Jerry animaram a minha infância e passaram a fazer parte do meu imaginário para sempre. Adorava aquelas corridas tontas em que o Jerry envolvia o Tom e vice-versa. Tomava partido ora por um ora por outro e, sempre pelos dois, no fim de contas. Talvez fosse tendenciosamente a favor do mais pequeno, por ele ser mais pequeno, mas sem nunca condenar o maior pelo simples facto de ser maior! Agora, olhando para essas memórias, percebo que nutro uma simpatia espontânea pelos roedores e que adoro felinos. "Ratinha" é um nome carinhoso que se ouve com frequência no seio de casais portugueses, quando noutras partes do globo, "ma petite chatte" ou "pussy cat" são mais frequentes em manifestações íntimas. 
Outros ratos vivem no mundo de fantasia do insconsciente: Mickey, Topo Giggio e Ratatui são alguns exemplos,  que alimentam os ideologemas  do nosso imaginário conceptual, com o uso de alegorias, metáforas,símbolos e mitos, construíndo e desconstruíndo o nosso discurso interno quanto à tradução que fazemos da realidade social, económica, política e cultural em que vivemos. 

Mas também há aqueles que têm dos ratos uma imagem bem diferente, vendo neles uma ameaça, sentindo-os como rivais e potenciais inimigos ou então, servem-se deles para propósitos nem sempre óbvios - para os ratos, claro.

Lembro-me, por exemplo, de Robinson Crusoe, naqueles tempos na ilha, em que teve de usar de estratégia para garantir a sobrevivência. Era necessário preservar os grãos de cereais da ameaça dos ratos. E, Robinson, astuto, conhecedor da população de bichos da ilha, preparou, cautelosamente a armadilha. Havia duas castas de ratos: os cinzentos que eram autóctones e os negros que tinham vindo nos navios e que, posteriormente, tinham proliferado. Eram uma séria ameaça para a sua colheita de grãos. Robinson decidiu sacrificar uma pequena parte dos cereais para os atrair:
«Espalhou então dois sacos de cereal pela pradaria, tendo primeiro traçado com os grãos um fino rasto que partia da gruta. (…) Ao cair da noite, os pretos vieram em grande número recuperar os grãos que, certamente, consideravam sua propriedade. Os cinzentos juntaram-se para repelirem essa súbita invasão. A batalha desenrolou-se. Parecia que uma tempestade levantava por toda a parte pequenos jactos de areia. Os pares de combatentes rolavam como bolas vivas, ao mesmo tempo que uma chiadeira ensurdecedora subia do solo. O resultado do combate era previsível.» 
in "Sexta_feira ou a Vida Selvagem", Michel Tournier
As duas castas de ratos dizimaram-se mutuamente e Robinson ficou com os grãos todos para ele. 

Sem falsos pudores e consciente da existência de bastidores, não quero participar em lutas de ratos, no palco da Educação e Formação de Adultos em Portugal.
Quero manter os olhos bem abertos, de preferência, sob o "véu da ignorância" de Rawls
Quero perceber em que batalhas nos querem envolver e por que razão o querem fazer. 
Quero participar na construção de um país maior perspetivado para a Aprendizagem ao Longo da Vida em que o sujeito aprendente se reconhece como agente da sua formação contínua, assumindo princípios de vida que incluem respeito, igualdade, transparência, autonomia e confiança na construção de uma identidade em que a partilha de experiências seja uma porta aberta para o desenvolvimento. 

Cidadãos mais qualificados constroem uma sociedade mais justa, porque a compreendem melhor.




quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

MMXIII

2013 chegou depois de 12 meses, 12 desejos agregados a 12 passas, uma taça de champanhe, sirenes, fogo de artifício, sorrisos, abraços e os votos:
- Bom Ano!
 
2013 chegou como chega qualquer dia, após a meia noite. Ainda com cheiro a novo, escrevem-se os primeiros eventos e compromissos nas agendas, elaboram-se listas de objetivos que se pretende ver realizados (dos menos aos mais ambiciosos, dos mais simples aos mais complexos), acredita-se que desta é que se vai fazer “isto” ou “aquilo” que se tem adiado… pois o novo ano traz o estímulo que aguça a vontade e espicaça a audácia. E traz, também, a esperança num “mundo novo” no qual, à sua maneira, munidos com a sua Espada, todos voltaremos a ser Conquistadores.
 
 
Boas e novas conquistas a todos!

domingo, 23 de Dezembro de 2012

Haja prendas para todos!


Que o pai Natal traga alegria, amor, paz, esperança, saúde e prosperidade...
Que cada um de nós possa realizar pelo menos um dos seus sonhos, em 2013...
Que o mundo seja um bocadinho melhor...

São os nossos votos! 

segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Em jeito de balanço

No passado sábado, 08 de dezembro de 2012, na Fundação para os Estudos e Formação Autárquica decorreram as II Jornadas dos Profissionais de Ciências da Educação / IV Encontro Nacional de Licenciados emCiências da Educação. O segundo painel concentrou a atenção na Educação e Formação de Adultos em Portugal. Na presença de especialistas na área, abordaram-se questões tão sensíveis como pertinentes numa altura em que urge construir um quadro sólido neste domínio de atuação.
 
II Jornadas dos Profissionais de CE/ IV ENALCE (Fundação CEFA, 08/12/2012)
 
De um lado da mesa, Sérgio Rodrigues, presidente da ANPEFA, fez referência às limitações financeiras que condicionam as práticas dos (ainda e atuais) Centros Novas Oportunidades, que acolhem grande parte da oferta educativa e formativa destinada a adultos – uma verdadeira “porta de entrada” como a ANQ, no seu tempo, postulou.
 
Do outro lado da mesa – separados pelo moderador, mas em uníssono no reconhecimento que algo (necessita e) tem de mudar – o Professor Luís Alcoforado salientou que é preciso estabilizar as políticas de educação e formação de adultos, dado que até ao momento apenas existiram “contratos-programa” que nunca configuraram verdadeiramente o que se deseja ser uma política estável. Justificou, ainda, porque considera que as políticas devem seguir uma lógica bottom-up, partindo do território, da vontade de mudança por parte da sociedade civil, das experiências locais e das comunidades: o desenvolvimento económico não parte apenas da educação e da qualificação, mas sim da (consciência de) mudança das pessoas.
 
Tal como um edifício assenta numa construção bem implantada e pedra a pedra assume a sua identidade e reconhecimento, também a Educação e Formação de Adultos – enquanto objeto e objetivo das agendas políticas centrais – deveria solidificar as suas bases nestes princípios.
 
 
 
Foi ainda defendido no Encontro que:
  • Cada vez mais a política não é uma ação do Estado central, mas dos atores locais
  • Cada vez mais as políticas tendem a basear-se no conhecimento especializado
  • Cada vez mais os especialistas são atores locais que através dos seus conhecimentos legitimam a ação.
Mas… será que o Povo tem capacidade para uma real emancipação e é, efetivamente “quem mais ordena”?
 
Com o remate de cada dezembro, almejam-se mudanças e novos desígnios. O brinde no auge das doze badaladas aliado ao lema “Ano Novo, Vida Nova” anuncia essa vontade, como o renascer da Fénix. Há uma sensação de recomeço (num contínuo) aliada ao desejo de mudança, de melhoria e de crescimento. Sinónimo de mais um degrau que se subiu na escadaria monumental da existência. Acreditemos que sim… and “always look on the bright side of life”!
 


sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

2013: O regresso da Tourada, 40 anos depois...



No silêncio atroz destes dias de dezembro, o frio acutilante da ausência de palavras corta, lancinante, qualquer argumento, por mais caloroso que este queira ser. 
Sedentos de luz, os organismos procuram, na resiliência dos dias, transpor os obstáculos pétreos e romper a crosta da rotina, em sequências de absurdas suposições, considerações e confusões. Vêem-se sorrisos de complacência resignada, ouvem-se palavras de esperança natalícia, mescladas do terror de não querer ver nem saber do abismo subliminar do desemprego. 

A Matrix impede rasgos de clarividência, criando situações de "déjà-vu" e sobressaltos no hiperespaço, com seminários de endorfinas e esclarecimentos de nada. 
É querer acabar com a noite sem o alvorecer, é querer fazer do inverno o espelho do verão, é pedir ao ditador que semeie a liberdade e que a deixe florescer.
Condenam-se várias gerações à escravatura da indolência em prol de uma organização que não as protege, não as defende, não lhes garante segurança nem conforto. 

Trabalhem! Poupem! Paguem! Produzam! É esta a vida que os meus pais me desejaram? É esta a vida que eu quis para os meus filhos? É este o mundo em que acredito? É esta a lição que o meu planeta me deixa? 

O Rapto de Europa - Guido Cagnacci

Europa, toma cuidado que este touro não é Zeus! Estamos reféns de um deus menor que nos mata, encurralados nos corredores dos corretores e especuladores, condenados às sevícias de quem nos diz que é para o nosso bem e para o bem do país.

SIM. O SILÊNCIO MATA. 
Mata a criatividade e o génio, mata o desenvolvimento e o progresso, mata o amor pelo que nos rodeia e por aquilo em que acreditamos. 
Mata-nos,insidiosamente, impiedosamente, mata-nos sem pedir licença.
Mas enquanto fôlego houver, hei-de pegar na minha voz e cantar...

"Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
esperas..."
Ary dos Santos

terça-feira, 20 de Novembro de 2012

Dezembro e o Fim do Mundo

Cá estão os dedos a querer falar em nome do coração, declinando, na escrita, a melodia do tormento e da bravura, como quem quer fazer do presente o seu passado e do futuro o seu presente.

Os Centros Novas Oportunidades estão quase a fechar portas. Vai acontecer em dezembro, em parceria com o fim do Mundo, anunciado para esse mês. E, de acordo com esse mesmo protocolo, não se trata de um fim, mas sim de um recomeço.

2013 dará lugar a um outro tipo de entidade.

Pausa.
A espera pode ser a melhor oportunidade para olhar para o caminho.
Ver o que foi feito e gostar.
Reconhecer a criação como sua, enquanto produto do trabalho desenvolvido por uma equipa, em torno de um objetivo comum, no mesmo barco, dando força motriz aos remos, deixando ao mar gotas de suor cheias de pensamentos criativos e diligentes.

Trabalhar num Centro Novas Oportunidades foi uma experiência profissional inesquecível, porque também foi uma experiência de transformação pessoal e de crescimento individual. O processo de reconhecimento e validação de competências colocou-nos no core do Estado da Arte, quanto à problemática da literacia, pelas veredas de um país ainda intelectualmente sonolento, vítima de tantos anos de humilhação e de desprezo.

Prazer.
Foi um tempo para fazer as pazes com o que de melhor Portugal oferece. Nos olhos de Maria, João,  Margarida ou  Tomé, o brilho de se saber visto e ouvido, com o que de mais assertivo se pode encontrar no ato de escutar e de olhar, foi a recompensa-mor para tantos profissionais da Educação e Formação de Adultos.

Paradigma.
Haverá motivação maior que o entusiasmo? Aquele com que os técnicos e técnicas abraçaram a causa da formação de adultos permitiu transformar o modo de pensar de uma grande parte da população visada. As mulheres e os homens que hoje questionam o mundo que os rodeia aprenderam a usar dos seus direitos de Cidadania. São esses que ensinam os filhos a amar o conhecimento e a liberdade de pensar. São esses que lêem com prazer e que aprenderam a questionar  o que lêem. Agora, querem outros horizontes, mais abrangentes, maiores, mais exigentes, melhores, porque a essência da natureza lusitana, essa, nunca mais será a mesma.

"A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original" Albert Einstein

quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

Amanhã, talvez...

Hoje, nada aconteceu. De novo. Nada de novo aconteceu. Nada.
Hoje, de novo, nada aconteceu, nada de novo.

Mas Amanhã, sim Amanhã, oh Amanhã, talvez...


Acordei às 7.00, sem despertador, a lembrar-me ainda de uns laivos de sonho solto, que logo, logo, recolheu às brumas amnésicas do bosque de Morfeu. Com determinação, empurrei os lençóis e saí da cama, gosto de chegar antes do tempo, para tomar balanço, ver o enquadramento e não perder pitada.


Olhei para o espelho. O meu sistema operativo ainda estava a reiniciar...


C:\ Terça-feira 23 de outubro. (Dia de São Receber!) :-)
........
N:\ É preciso enviar o termo de aceitação relativo ao último reembolso.
O:\ Reunião às 10.00 com uma entidade formadora, para as modulares.
.....
E:\ Aulas à tarde.
F:\ Overall Report P1& P2 do projeto reAct- reactivating teachers and learners, para concluir.
......
M:\ Planificação das atividades a desenvolver a partir de janeiro 2013.
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A mensagem de erro alertou-me para o vazio em que vivemos, em penúria de perspetivas, sedentos de orientação. Esta ensurdecedora ausência de indicações por parte da ANQEP, que de promessa em promessa, saltita de estação em estação, sem fazer caso dos ocasos a que condena algumas das entidades que tutela, mata-nos a motivação, sacrificando, assim, aquilo para que fomos talhados, em primeira instância: a criatividade e a inovação. O desânimo resultante da ausência de amparo debilita gradualmente a capacidade de realizar e conduz à desistência, ao abandono de tarefas, à diminuição da resiliência. Fica-nos a sensação de que agir para nada serve.


Mas de nada serve entrar em pânico. Porque dezembro não será o fim dos fins. Será apenas o fim do ano. 
Muita coisa pode mudar. Se o sistema não nos der resposta, podemos ser nós a responder.







2013 será um ano novo, com um alvorecer que depende de todos nós. Com Gandhi, aprendemos que  podemos ser os agentes da mudança que queremos ver no mundo.  

domingo, 14 de Outubro de 2012

Mu(n)dando…

Mudanças no mundo. Ou um mundo em mudanças. Ou as duas coisas. Ou uma “simples” crise de existencialismo e de valores. Ou uma espécie de moratória psicossocial: uma espera, mas ativa, testando várias hipóteses para definir “o” caminho. Talvez isso: adolescência, como quem desenha um compasso de espera nos compromissos que antecedem a assunção de papéis e responsabilidades inerentes à fase adulta.
“Coabitam, nesta fase [adolescência], desejos ambivalentes de crescer e de regredir, de se sentir ainda criança e já adulto, de autonomia e de dependência, de ligação ao passado e de vontade de se projectar no futuro”: será isto?! Isto… Isto é duro, afinal ser jovem não é um posto… ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto!


E, coçando as ideias e as borbulhas dos pensamentos:
Filtram-se rumores na escrita do vento
Sem voz, sem direção
Sem bússola regulada,
Sem regras, 100 limites
Sem postos nem lugares
Despidos de raios solares.

Mas… mudamos (mudemos!), como ordenam os Humanos: se não vivemos satisfeitos, pois estamos sempre a tempo de mudar e não devemos viver contrafeitos se há vida em nós a latejar! Oh, se dependesse de uma simples letra e algumas notas musicais. Combinavam-se vários Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó… et voilà!

 
Mudavam-se as palavras e a as rimas… et voilà: tempos, vontades, ser e confiança… porque “todo o mundo é composto de mudança”!
 
 
E se “o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem”, chegará o tempo da mudança de estádio de desenvolvimento e os pensamentos deixarão de manifestar a erupção das borbulhas adolescentes... antes que seja tarde demais.

quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

O canto das cigarras


Gosto de ouvir o canto das cigarras.
Tem uma vibração característica que me aquece a alma e exala, na perfeição, sentires e sabores da terra e da vegetação. Lembra-me cheiros de verão, do alecrim, da pimenteira e do rosmaninho, que não existem no norte da Europa.
As cigarras cantam sem esperar nada em troca, expressam o prazer de viver e celebram a vida, com um tempo musical allegretto grazioso, que nos prepara para o mundo onírico de Morfeu, o moldador de sonhos.
Tenho uma relação diferente com as formigas. Entram silenciosas nas nossas casas, sem pedir licença e apropriam-se do que lhes parece valioso, impiedosamente. Não cantam para nós, nem nos alegram de alguma forma. Na realidade, roubam o que é nosso e nada nos dão em troca. Vivem numa organização eussocial onde o indivíduo serve dogmaticamente o formigueiro, entidade abstrata coletora de víveres, cuja missão e visão consiste exclusivamente em manter a espécie.

Há dogmas que nos ficam engramados desde a nossa tenra infância, com histórias aparentemente inofensivas,  mas carregadas de juizos de valor, que moldam a nossa visão arquetípica do mundo e das relações.

Quem ficou pela educação formal, o ensino estandardizado, formatado à medida do Estado-fábrica, produtor de agentes de trabalho, absorveu piosamente a versão claramente redutora da fábula de Esopo, revisitada por LaFontaine, e julga que as formigas são todas trabalhadoras irrepreensíveis e que as cigarras são todas ociosas. Acredita devotamente que a virtude consiste em cumprir ordens e metas.
Mas quem procura atualizar-se em permanência, crescendo e evoluindo em espirais de proporção aurea, reconhece na Aprendizagem ao Longo da Vida, a aplicação algorítmica da sequência de Fibonacci e descobre que, na Natureza, existe um fator de imprevisibilidade, longe ainda de estar ao alcance de ciência.

O fator que, por exemplo, fez da cigarra Salgueiro Maia o herói português; aquele que impeliu uma jovem cigarra algarvia a abraçar um polícia em Lisboa; aquele que levou as cigarras espanholas a sentarem-se na Praça Neptuno. Quem aprende para além do que lhe é ensinado, descobre que o canto da cigarra é a expressão de uma alma maior, a de Géia, calorosa, generosa e abundante, traduzida, também, nos Cantos dos Lusíadas , Livro do Desassossego e Pedra Filosofal da nossa Alma Lusa.
"A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que é o homem de ação." Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

Pois.
Mas incomoda.
Incomoda os que têm dogmas engramados.

Para que conste, a verdadeira história da cigarra e da formiga não acaba como nos foi repetidamente ensinado. A formiga NÃO fechou a porta à cigarra;  acolheu-a e alimentou-a.
Em troca, a cigarra animou os serões de inverno e aprenderam as duas a dançar...

Je chantais, ne vous déplaise.

Vous chantiez? j'en suis fort aise:

Eh bien! dansons maintenant. 


quarta-feira, 12 de Setembro de 2012

Monsieur le Président


-Mas podemos continuar a trabalhar até dezembro?
-Podem. Sem formadores. Mas podem.
-Então o que podemos fazer? Se não há formadores, não haverá formação complementar?
-Não. Formação complementar, não. Mas de resto, podem fazer tudo.
-Tudo? E como podemos validar competências sem os formadores? Pedimos às técnicas? Elas podem?
-Podem. Não devem, mas podem.
-E as sessões de júri? Fazemos sessões de júri sem quorum?
-Nãão. Sem quorum nãão. Podem fazer sessões de júri, mas com quorum.
-Mas que quorum, se não há formadores?!
-Podem pedir que os formadores venham às sessões de júri. Eles podem vir às sessões de júri.
-E devem vir?
-Não. Dever, não devem. Mas podem....
-E podemos aceitar novas inscrições?
-Nããão! Novas inscrições, nem pensar! Mas, de resto, podem fazer tudo.
-E se houver interessados, o que lhes dizemos?
-Devem dizer-lhes que está tudo a funcionar dentro da normalidade e harmoniosamente.
-Mas não podemos!
-Podem. E devem! Se acharem que não têm condições para trabalhar, podem sempre fechar.
Lettre à Monsieur José Manuel Barroso, Président de la Commission Européenne:
"Monsieur le Président Je vous fais une lettre Que vous lirez peut-être Si vous avez le temps    ..."
                                        Boris Vian
Je viens de recevoir des instructions que je ne veux pas suivre, parce qu'elles volent mon âme et condamnent mes rêves à disparaître au plus profond des gouffres de l'ignorance.
Avec vous, je partage une vision de l'Europe qui  "place les citoyens au cœur de son projet stratégique et s'emploie à faire rayonner les valeurs et les intérêts européens dans le monde, une Europe qui favorise le développement de nouvelles sources de croissance et fait progresser une réglementation intelligente en vue de marchés sains au service des citoyens, une Europe, enfin, de la liberté et de la solidarité"
Pour faire avancer cette Europe dont je rêve, celle des citoyens, il est essentiel de leur donner ce dont ils ont besoin. Pour une croissance intelligente, il faut encourager les citoyens à se former, à poursuivre des études et à améliorer leurs compétences. Vous l'avez dit, je crois. 
Mais, voyez-vous, Monsieur le Président, il y a une différence énorme entre ce rêve, cette vision et ce qui se passe sur le terrain, dans notre pays (le vôtre et le mien). 
On dirait plutôt la mise en scène d'un cauchemar, où gronde une nouvelle guerre, silencieuse et discrète, où les armes invisibles ont l'apparence de la faim, de la peur, de l'incongruence, du silence et de l'ignorance.
Et cette guerre-là, Monsieur le Président, je ne veux pas la faire! 

        

segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Novo ciclo

E as ondas do mar não cessam o movimento. Podem abrandar num ponto, vazando a maré; mas, ao mesmo tempo, do outro lado, a turbulência manifesta-se e a água galga passeios e estradas sem qualquer pedido de autorização.
"Banco de areia", Pedrógão, 2010
O movimento é permanente e os ventos fustigam as velas que (quantas vezes?!) carecem de reparação. O enrodilhado das nuvens que se transformam em tempestades marítimas confundem os instrumentos que deixam de estar devidamente calibrados e trocam os pontos cardeais.
Quando passam as rajadas de vento, as chuvas fortes (dilúvio, por vezes!) e as nuvens medonhas resta um céu mais límpido e um extenso manto de água que, ao fundo, se dilui onde começa a linha celeste transmitindo – mesmo que temporariamente – uma sensação de paz e leveza. Apenas o tempo necessário para apetrechar o organismo e a mente com mais defesas capazes de fazer face a outra situação inquietante. A resiliência é imperiosa perante condições atmosféricas adversas.
E o barco continua a sua trajetória, auxiliado, quando se aproxima da zona costeira, pela luz dos faróis que, das suas quatro dezenas de metros de altura, com o seu alcance de cerca de 30 milhas náuticas e um foco luminoso com potência de 1000 W, lançam o seu alerta: “aqui há terra!”.
Lâmpadas do Farol do Penedo da Saudade, 2012
E, em terra, nem sempre as redes trazem o produto esperado. Ou porque a agitação das águas não permitiu, ou porque as espécies conseguiram desviar-se a tempo dos fios ao avistarem, ao longe, as boias, ou porque… mas nem assim os pescadores da vida desistem e, com mestria, paciência e sapiência, persistem!
São Pedro de Moel, 2010

Sou um destes pescadores, apesar de ter visto atracar o barco em que seguia desde 2008. Compete-me agora reunir munições para, assim que possível, voltar a viajar em alto mar.
 
 
 

quarta-feira, 25 de Julho de 2012

As Férias e o Portal de Agosto


O blog vai de férias. Quando regressar, em setembro, teremos passado pelo Portal de Agosto, zona paradoxal de transformação referencial.

Recordo, com orgulho, cada momento que, nesta viagem, nos permitiu crescer e fazer da nossa missão, na Educação e Formação de Adultos, uma oportunidade para ajudar outros a seguir o seu caminho, na senda da qualificação. Houve principalmente pedras, daquelas que moldam os passos, como as que encontramos nas caminhadas à beira-mar, quando descalços, em busca de conchas e búzios; mas conseguimos fazer dessas pedras ponto de apoio, para construir e erguer embarcações resistentes, adequadas à vida em alto-mar.

Agora, há um silêncio instalado, em lamento de fado invisível, que se abateu como um manto, nos sorrisos outrora radiosos da tripulação do meu barco. O breu do mês de setembro vai paulatinamente roendo as velas e o mastro, desnorteando bússolas e sextantes, enquanto os quatro ventos sussurram boatos e rumores, em sorvedouros de esperança. 

Ora, até no abismo, é possível encontrar vida. As conchas, os búzios e as pedras, os sorrisos e a alma, sobretudo a alma, movem-nos até onde quisermos ir. Levamos na bagagem muito mais do que tínhamos antes desta odisseia; estamos mais ricos, sim, ricos de experiência feita de laços e de nós, que só os marinheiros sabem fazer. E é a força dessas cordas que vai continuar a vibrar, harmonicamente, em murmúrios de mar, à espera de novas aventuras. 

Juntos, fizemos esta viagem, crescemos e aprendemos a desenhar um mundo cada vez melhor, feito de pedras e búzios e conchas, aparentemente construído na areia, na realidade, ancorado no coração do amanhã e pintado de cânticos góticos, como os que se conseguem ouvir no Panteão das Capelas Imperfeitas.

Até setembro, marinheiros.




terça-feira, 17 de Julho de 2012

Estranhas marés e o navio fantasma

De Pirata tenho pouco, talvez o gosto pela aventura e o fascínio pelo mar, adoro pérolas e tesouros, mas sou incapaz de me apropriar daquilo que não me pertence de pleno direito.

Quando, em 2008, assumi a função de Coordenadora do CNO D. Inês de Castro, peguei no leme do barco e lá fui navegando, por mares a descobrir, tempestades e tumultos, de sextante em punho, porque navegar era preciso, havia mares e marés, a viagem era a razão do esforço e o esforço era o impulso do barco. Uma epopeia cheia de vida e de encontros, um hino à dignidade, em versos de inovação e ritmos criativos de progresso. Foi um tempo de crescimento, árduo e trabalhoso, mas profícuo e produtivo. Foi um conto das mil e uma descobertas em histórias de vidas ricas de saberes e plenas de semânticas de experiências. Que saudades desse mar! Que saudades da viagem e de perceber a vontade de nos ver viajar!

E agora, que estranhas marés são estas que nos chegam?  

Cresci convicta de que o comandante seria o último a deixar o navio, pelo que me preparei, desde o primeiro momento, a ancorar com dignidade, numa última viagem, numa qualquer ilha, mesmo que feita de promessas, para dar lugar a outra versão, melhorada ou não, da função que ainda desempenho. Mas o destino assim não quis. Destino, é o nome que se dá ao resultado de tomadas de decisão por um conjunto de políticos, com efeito direto na vida das pessoas que eles governam, mas em relação às quais não manifestam qualquer preocupação que não seja demagógica. Pois o destino (com d pequenino, para o distinguir das opções grandiosas da Vida que se expressam em Destino com D grande) quis que o primeiro a sair do barco fosse o comandante e os seus oficiais. Sem Coordenadora e sem formadores, como se pode manter um CNO em funcionamento? Não pode. 
Quando os decisores políticos querem acabar com um projeto, mandam decapitar a tripulação e acabe-se então com a viagem, argumentando, a seguir, que se o barco não tem condições, passa a navio fantasma e então é melhor atracar... Mas que hipocrisia é esta? Mas que estranha conceção do mundo, feita de falsidade, de aparências, de não-ditos, de silêncios, de surdinas, de ruído, de ausência de transparência, de falta de consideração, esvaziada de valor, é esta, que nos governa agora? Que país é este?
Onde estão os descobridores de antanho que por mares nunca dantes navegados foram para além do que se podia imaginar? 

Sinto nas veias a vibração das conchas que se agarraram ao casco do meu barco e ouço as gaivotas livres a chamar pelo vento, para que se ergam as velas  e que os canhões gritem a revolta! 
Haja força, companheiros, haverá marés e haverá marinheiros, sereias, zombies e outros monstros das profundezas, mas como o meu amigo Horácio já dizia:  "Os que atravessam os mares mudam o firmamento, mas não mudam a alma."  
A alma de marinheiro, porque o mar também é meu, a alma de Pessoa, enquanto valer a pena, a alma de Pirata se o destino quiser. 



domingo, 8 de Julho de 2012

Onde? Quando?

Por vezes, as palavras são difíceis de encontrar. Como o Wally. Mas existem, estão lá (ele também). Com cuidado, com mestria, com sapiência… aparecem.
Durante este período de pausa detive-me na procura de palavras. Algumas vezes, em vão. Tenho procurado sentido nas medidas adotadas. Árdua tarefa. Não o encontrei. Onde estará?
Existem duas possíveis resoluções para o projeto: seguir em frente (um rumo indefinido e incerto) ou seguir um novo caminho, (re)construindo passos e explorando novos mares. Ficar no meio, estagna(n)do, traduz um estado híbrido que, neste caso, parece não existir. Mas… esse mapa traçar-se-á quando?
Seja qual for a (re)solução, haverá uma abóbada azul (ainda que salpicada por farrapos de algodão ou debaixo de um extenso lençol de nuvens que se dissipa ao sabor da brisa e do vento) sob um campo ciente da necessidade de rotação de culturas e de práticas metodológicas para poder continuar a renovar ideias e a produzir frutos.

Independentemente da cultura à qual passarei a dedicar-me, voltarei...

terça-feira, 5 de Junho de 2012

Resiliências



Depois de Emmy Werner, a resiliência passou a ser percebida como uma virtude: a capacidade de se desenvolver com sucesso em ambientes potencialmente adversos, a capacidade de recuperar a forma original depois de ter passado por condições muito adversas. A resiliência permite-nos resistir (aguentar a barra) e ainda tirar proveito dos obstáculos encontrados, usando-os. 
O termo vem do latim: resilire (rĕsilio, silire, silui), que significa saltar de novo, ricochetear. Trata-se portanto de recomeçar, não no mesmo lugar, mas saltar um pouco ao lado para continuar a avançar. 
Resilir também significa libertar-se de qualquer coisa. Depois da ferida, o ser humano resiste e cresce, sem fixar o seu olhar na ferida, mas fazendo, dessa ferida, força para um desenvolvimento ainda mais significativo.
"Uma nova consciência começa a surgir: o homem,confrontado de todos os lados com as incertezas, é levado numa nova aventura. É preciso aprender a enfrentar a incerteza, já que vivemos numa época de mudanças em que os valores são ambivalentes, em que tudo está ligado".
Edgar Morin (1921-)pensador francês.
Há, na história da humanidade, catástrofes e destruições, dilúvios e migrações, terramotos e incêndios, ressaltos e obstáculos, ameaças e tormentos, opressões e guerras, guetos e escravaturas, colonialismos e apartheids, fascismos e ditaduras, conflitos e rebeliões, revoluções sangrentas e cabeças cortadas, perseguições e impiedades, extermínios e genocídios, prisões e execuções sumárias, injustiças e demagogias, mentiras e falsas promessas, ambivalências e incertezas...


Há, na natureza, pano de fundo da história da humanidade, exemplos extraordinários de resiliência, que nos surpreendem, porque percebemos que são o resultado da projeção de sinergias heroicamente mobilizadas, depois de terem sido sujeitas às mesmas catástrofes, destruições, dilúvios, migrações...

De igual modo, os Homens e as Mulheres têm, no seu património genético, as mesmas energias criadoras e são portadores de sementes de força, convicção, confiança, respeito, pertença, colaboração criativa, adaptabilidade e desenvolvimento. Para além da adenina, guanina, timina, citosina e uracila, estes Homens e estas Mulheres também são compostos de amor pela vida e pelos seus valores. 



terça-feira, 22 de Maio de 2012

Quem tem medo da Educação e Formação de Adultos?

O tempora O mores, diria Cícero, de novo, se agora vivesse...

Os tempos são de turbulência efervescente, as notícias nem sempre o são, os suspeitos ficam suspeitos, os culpados ficam impunes, mudam-se as vontades,  albarda-se o burro à vontade de quem encomenda estudos e avaliações e, à volta da minha visão do mundo, parece girar um carrossel de incongruências...

Lembram-se de como era andar no carrossel e, num espaço de tempo que não ía para além de cinco minutos, transpor para ali a dimensão do universo?  Só os cavalos de madeira e os coches eram percetíveis; os nossos pais e amigos, que nos acenavam do lado de fora daquele mundo, eram uma imagem fluida e desfocada, distante da nossa realidade inquestionável do momento. O que contava, ali, era a motivação suprema do instante que consistia em conseguir agarrar o engenho em forma de pingente de cortinado com que nos acenavam e que nos iria dar direito a mais uma voltinha de graça. 

Uma ilusão feita à imagem da ilusão do mundo. O fascínio pela viagem no carrossel tinha uma dimensão hipnótica, provavelmente herdeira de um qualquer arquétipo de ciclos e da sua magia ancestral...
Quando cresci, descobri que, enquanto eu estava no carrossel, os adultos descansavam, porque eu estava controlada e confinada àquele espaço naquele tempo, a usar da minha ilusória liberdade de escolha e a desenvolver atividades preparadas para mim, por eles...
Tomei consciência do carrossel e dos seus cavalinhos de papel, mas nada disso me retirou a paixão pela viagem...

E agora? 
Que carrossel é este em que nos encontramos? 
Que pingentes são estes, agora, que nos distraem da percepção da realidade circundante? 
Quem anda a escolher as cores dos cavalos e as sonoridades da música com que nos deixamos embalar? 
E quem são os que, do lado de fora deste carrossel, nos observam, enquanto estamos ocupados com os pingentes que nos darão direito a mais alguma coisa, talvez, em setembro? 

Não é preciso ter resposta para todas as perguntas, basta ter a consciência da sua existência. 
Mas é preciso  não perder a noção do prazer e da paixão, para prosseguir na viagem.
No mundo mágico da Educação e Formação de Adultos, descobri a dimensão inovadora e transformadora do reconhecimento e da confiança, referências fomentadoras da reconciliação com a aprendizagem ao Longo da Vida. Estabeleceram-se pontes entre formandos e formadores, formando-se redes de relações, impensáveis no século passado. Para quem ficou, mentalmente e ideologicamente, no século passado, a dimensão libertadora da confiança apresenta-se como uma ameaça: cresce a cidadania, o espírito crítico e um posicionamento mais responsável numa sociedade cada vez mais complexa e dinâmica.
Quem tem medo desta mudança paradigmática de consciência na população portuguesa?
Quem tem medo de cidadãos mais qualificados para a vida?

O modelo de reconhecimento de competências procurou permitir a conciliação entre as vertentes do desenvolvimento pessoal e profissional. Mais que um dever, a Educação e Formação de Adultos, deve ser entendida como um direito, consagrado na Constituição, nos artigos 73º e 74º.