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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dia Internacional de Histórias de Vida: Divulgação

Por convite da Dra. Filomena Sousa estou a colaborar na organização do Dia Internacional de Histórias de Vida, projecto que acho muito interessante e importante para a valorização da aprendizagem ao longo da vida na sociedade portuguesa actual e futura.

Nos próximos dias irei contactar todos os Centros Novas Oportunidades com que colaboro directamente para identificarem adultos e histórias de vida para serem partilhadas neste projecto.

Este projecto, consolidado por práticas de trabalho anteriormente desenvolvidas pela Cooperativa MemóriaMédia revela-se de uma actualidade fundamental para a valorização da História de Vida como metodologia de trabalho no campo da Educação, mas também, como movimento social de valorização da aprendizagem em contextos diversos a reconhecer por todos.

Assim a causa defendida define-se como:

Todas as pessoas têm um papel na sua comunidade, ouvir as suas histórias é uma forma de promover a integração pessoal e social, é uma forma de promover a identidade e memória colectiva.

O objectivo da campanha:
  • Criar uma rede (movimento) nacional de voluntariado que sensibilize o país para a importância da partilha de histórias de vida
  • Contribuir para que a história de cada pessoa seja valorizada pela sociedade.
As acções:
  • Programação, nos dias 15, 16 e 17 de Maio, de eventos que abordem a temática das Histórias de Vida;
  • Encontros com uma, duas ou mais pessoas que partilhem histórias da sua vida - encontros organizados em todo o país por entidades públicas, privadas, colectivas e individuais - municípios, bibliotecas, associações, escolas, universidades, particulares e outras entidades).

quinta-feira, 26 de março de 2009

Relato: Profissional RVC

Tenho, por hábito, de tempos a tempos, colocar neste espaço relatos de adultos que terminam o seu processo de RVC. Hoje decidi colocar um relato de uma profissional, principalmente pelo seu conteúdo. Aqui fica:

"Hoje tive uma experiência marcante, para juntar a tantas outras que vou vivendo nos percursos da vida. Hoje bateu-me à porta um senhor. Estava muito sujo, de barba por fazer, primeiro pensei (no pensamento estúpido que vamos formando na rotina dos dias...) que se tivesse enganado. Mas não, era mesmo para o Centro, percebi-o assim que se sentou e me disse, com um olhar vivo e brilhante, que há muito tempo que ouvia um anúncio na rádio por "causa de se voltar à escola". O mesmo olhar que reconheço sempre em quem tem curiosidade, em quem quer aprender, sempre mais e mais, contra o fatalismo da idade ou das convenções sociais. O senhor não tem quaisquer habilitações, não sabe ler nem escrever, apenas assinar o nome numa escrita rudimentar, que fez questão de me mostrar no novíssimo Cartão do Cidadão. Pegámos nesse mesmo cartão para tentar ver o que sabia o senhor afinal. Soletrou com orgulho: P-O-R-T-U-G-A-L. Não sabe juntar as letras, por isso, apesar de as soletrar, não sabia que ali estava escrito o nome do seu país. Fiquei esmagada. Não por ser a primeira vez que contactava com uma pessoa analfabeta ou por achar que não existem (há quem diga por aí que o analfabetismo em portugal é "residual..."). Felizmente vivo no mundo real, real demais. No mundo em que há um senhor de 68 anos que me diz: "tem-me feito mais falta ler e escrever do que o pão". No mundo em que no ano passado, recentemente, não foi autorizado um curso de alfabetização para 9 (N-O-V-E) pessoas. Porque eram só N-O-V-E. Não hei-de descansar enquanto essas nove pessoas, mais o senhor Artur, mais outras que estejam "perdidas" noutras instituições tenham a OPORTUNIDADE de ter o direito fundamental de aprender a ler e a escrever. Quando lhe disse que, neste momento, não tinha resposta para lhe dar, o senhor chorou e disse "nós é que precisávamos! tem-me feito tanta falta! eu não pude mesmo estudar, com 4 anos já andava a criar cabras". Este é o Portugal real, fora dos gabinetes onde se decide a certificação e/ou a qualificação. Deixei-me estar com o senhor Artur, sem olhar para o relógio, sem pensar em sistemas informáticos que tentam controlar o nosso tempo. E naquele momento ouvi aventuras vividas em França, em Espanha, e a dureza da vida que o afastou da escola, que agora procura, com 68 anos, disposto a ir "para onde for" para aprender a ler e a escrever. "Vai aprender", respondi-lhe.»
Fonte: aqui.