quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Ciência da Vida

“O artista traça os pormenores quase como se tacteasse, e cada linha que acrescenta, reforça o retrato, mas nunca o torna definitivo. Aceitamos isto como o método do artista. Porém, a física actual mostrou-nos que este é também o único método de conhecimento. Não existe conhecimento absoluto e aqueles que o reivindicam, quer sejam cientistas ou dogmáticos abrem as portas à tragédia.”Jacob Bronowski

E para aprender com prazer e sentir paixão de aprender é necessário (re)aprender a observar. Pode parecer banal, mas... quanto se absorve de um simples acto de observação, desde que nos levantamos até que nos deitamos (e multiplicado por todos os dias em que esses dois actos se somam)? E não observamos apenas com o olhar. Observamos com os 5 sentidos. Toca-se, experimenta-se, sente-se... articulam-se ideias e sensações e, assim, aprende-se!
No dia-a-dia devemos misturar, diria equitativamente, uma pitada da abordagem empiricista (para a qual a realidade existe e apenas se pode observar o que essa realidade reflecte em si) e uma pitada da abordagem intelectualista (que refere que a realidade em si não existe, pois o que existe é uma construção social e pessoal da mesma e, assim, o que observamos reflecte diferentes perspectivas, todas aceitáveis). Dissolvendo um pouco de ambas as vertentes, confeccionar-se-ia uma terceira conduta: neo-iluminista. Esta, resultando da “fusão” das anteriores... aceita a existência da realidade, mas também aceita os processos sensoriais (captação da realidade) e de interpretação (desses mesmos dados) de cada pessoa.
Meu pai mostrou-me de forma nítida a diferença que há entre o que sabemos e o que lhe chamamos (…). Estávamos a brincar no campo, um dos miúdos disse-me: «Vês aquele pássaro naquele trigal? Sabes como se chama?». Respondi-lhe: «Não faço a menor ideia». Obtive então como resposta: «É um tordo-de-papocastanho. Afinal, o teu pai não te ensina assim tanta ciência.» Sorri, porque o meu pai já me tinha esclarecido de que o nome de um pássaro não nos ensina grande coisa acerca dele. «Vês ali aquele pássaro?», dissera-me uma vez. É um tordo-de-papo-castanho, mas na Alemanha chama-se halzenplugel e na China é designado por chung ling; mesmo que saibas todos os nomes que lhe dão, continuas a saber muito pouco sobre ele. Enfim, saberás alguma coisa acerca das pessoas e do modo como designam o pássaro.» E continuou: «Ora, o tordo canta e ensina os filhos a voar. Voa muitos quilómetros durante o Verão e ninguém sabe como se orienta». E continuava assim por diante (…). O que é importante disto tudo é que o resultado das observações, mesmo que eu fosse incapaz de obter qualquer conclusão definitiva, é um verdadeiro tesouro, um resultado maravilhoso (…).
Richard Feynman
Conferência realizada em 1966 na 14ª Convenção Anual da National Science Teacher Association
(In Feynman, R. (1991). Uma tarde com o Sr. Feynman. Lisboa: Gradiva, 15-37)
No fundo... existem tantas interpretações como cabeças!


Portanto, “a ciência não ensina nada: é a experiência que nos ensina qualquer coisa (Feynman, 1966). Tactear o “mundo” que nos rodeia transmite-nos ensinamentos, lições, aprendizagens. Permite aumentar a amplitude dos conhecimentos e cultivá-los para que sejam efectivamente frutíferos. E a experiência ensina-nos se os sentidos estiverem programados para observar o dia e a noite, a luz e a escuridão, o cheiro e o sabor, os obstáculos e os desafios. E, assim, cada dia é uma página de um livro enriquecido e enriquecedor. A História de Vida de cada pessoa – o seu olhar, a sua observação, os seus sentidos e a sua reflexão.

2 comentários:

CNO Dr. Joaquim de Carvalho disse...

Olá isabel,

Como sempre, uma importante reflexão!

Continuação de bom trabalho

Isabel Moio disse...

Grata pelas palavras!

Juntas, as pessoas fazem uma leitura sistémica do "mundo". E, assim, mais ampla e correcta.

Captando o "mundo" e observando, todos elaboramos o nosso Livro da Vida... mesmo que não seja construído por palavras, mas sim com o nosso sistema de valores. Eis, assim, a verdadeira "Ciência da Vida".

Bom trabalho e bons olhares sobre e sob essa "Ciência"!

Isabel Moio