terça-feira, 17 de julho de 2007

Reflexão sobre as Criticas ao RVCC

Sou avaliador externo e uma das minhas funções é a de valorizar o processo RVCC no seu contexto social e promover o seu desenvolvimento e consolidação face ao mercado de trabalho. Sou avaliador externo, em primeiro lugar porque acredito no processo RVCC e na Educação e Formação de Adultos. No dia em que deixar de acreditar, será o dia em que, deixarei de o ser. E hoje é já necessário credibilizar o processo, mais do que nunca.
A aposta no lançamento feito no Programa Novas Oportunidades foi visto por muito como uma mais-valia para a melhoria qualitativa das competências dos portugueses. Associado foi lançada uma campanha publicitária e recentemente uma "oferta" de computadores aos adultos inscritos no processo RVCC.
E o que se vai ouvindo? Sobre o processo RVCC? Sobre o Programas Novas Oportunidades?
Vai-se ouvindo que é facilitista; que visa essencialmente as estatistica; que destrói a ideia de trabalho feita pelos alunos no ensino regular; que não permite a qualificação; que é para enganar; que não tem qualidade; que não tem credibilidade.
A minha resposta? Sempre foi e sempre será a mesma enquanto eu conseguir ver a qualidade do trabalho dos Centros Novas Oportunidades a melhorar como o tenho assistido nos últimos tempos.
A resposta é simples:
- Facilitista? Não. A maioria dos profissionais são qualificados Psicólogos ou profissionais das Ciências da Educação. Licenciados ou mestrados. Que sabem o que estão a fazer. Os formadores, na sua maioria são ou foram professores do Ensino Básico e Secundário. Qualificados, profissionalizados, com anos de experiência. Exigem do adulto o cumprimento elevado dos requisitos existentes para o processo RVCC. Verdade que existem Centros Novas Oportunidades onde a exigência não é sempre elevada... nas também não existem escolas onde não o vemos também? Aqui compete ao avaliador externo actuar. Denunciar esse facilitismo se existir. Ou alertar para o mesmo, caso possa ser alterado.
- Visa a estatística? Sim. Porque é preciso certificar a população. Mas tendo em conta este facto ele não pode ser visto como negativo. Após a certificação muitos adultos podem ter acesso a formação, a melhoria de competências profissionais e pessoais, mas, acima de tudo, a iniciar um processo de qualificação. Sempre disse que o processo RVCC não qualifica ninguém. E só valerá e se credibilizará com aquilo que cada adulto e todos em conjunto fizerem após o processo. A estatística não é um factor negativo. Não pode é ser lido sem mais nada. Sem a potencialidade que encerra em si mesma.
- Destrói a ideia de trabalho e estudo dos alunos do ensino regular? Aqui surge uma dúvida! Grande! Quem é que se lembrou desta comparação? Uma coisa é o ensino regular, outra a Educação e Formação de Adultos. Não é o sistema que está errado, é a comparação. Nenhum adulto antes dos 18 anos pode fazer o RVCC. E vão dizer, 18 anos é pouco. Concordo e discordo. Concordo para alguns casos de "aproveitamento possível". Sinceramente e com o número elevado de adultos que já validei, conto pela mãos dos dedos os casos que consigo recordar. E todos eles foram, nos Centros Novas Oportunidades uma excepção muitas vezes criticada por toda a equipa após terem tido lugar. Discordo porque já encontrei adultos com 18 anos que tinham começado a trabalhar aos 4. Sim, disse 4 anos. Tinham muitas experiências profissionais e muita aprendizagem em formação. Assim, não posso concordar com esta crítica. São realidades distintas, destinadas a públicos distintos.
- Não permite a qualificação? Permite. Não dá. É uma questão de língua portuguesa. Abre portas. Quantos adultos já me disseram que precisam do 9.º ano para aceder a esta ou aquela formação para o seu trabalho ou para procurar emprego? Pois não dá qualificação. Não qualifica. O RVCC. Permite é a qualificação que antes era vedada. Imagina o leitor deste post ir a um centro de formação e ver negada o acesso a um curso por não ter habilitações? Mesmo tendo 10 ou 20 anos de serviço? Pois é melhor pensar... acontece e a muita gente.
- Não tem qualidade? Tem. Muita. As equipas dos Centros Novas Oportunidades foram apanhadas num projecto sem preparação. Foram confrontadas com uma alteração do paradigma do ensino-aprendizagem. Sim, houve erros, lacunas, imperfeições. Sim, houve desvios, incumprimentos... mas hoje os Centros Novas Oportunidades são locais especializados na Educação e Formação de Adultos e com conhecimento do terreno. Sabem como fazer. Sabem que para fazer é preciso melhorar. Sabem e conseguem ler, traduzir e acima de tudo operacionalizar o processo RVCC. Gostava de ver muito dos teóricos críticos no terreno a encontrar as soluções humanas, profissionais e escolar que as equipas hoje conseguem dar aos adultos.
- Não tem credibilidade? Para esta questão vou apenas dar uma resposta. Na abertura de um concurso público uma das condições preferenciais era que o candidato tivesse feito o 9.º ano via RVCC. Porquê? Era garantia de experiência profissional.
E diz o leitor deste post assim, então é milagroso. Não tem falhas. Respondo: tem, e não são poucas. Mas quais são efectivamente as falhas do Projecto Novas Oportunidades ainda?
São simples de identificar:
- A orientação ao adulto: Em muitos Centros Novas Oportunidades o adulto ainda é automaticamente encaminhado para o processo RVCC não lhe sendo dadas orientações para além deste processo. Este facto está relacionado com o tempo em que o RVCC era a única via. Hoje existem os cursos EFA, CEF, CET, Módulos... etc... A pressão das metas impostas ajuda a esta orientação sempre presente.
- Inovação: Muitos Centros Novas Oportunidades estão centrados no trabalho burocrático e técnicos sem tempo para pensar e melhorar o processo RVCC ou qualquer um dos outros. Fica de fora a inovação nos recursos e no próprio projecto.
- Seriação/Triagem: Faltam em muitos Centros Novas Oportunidades instrumentos de triagem para a situação de entrada (e de saída) do adulto. Estes instrumentos serão fundamentais para a orientação estratégica do trabalho com o adulto e de orientação nas fases do processo. Acima de tudo estes instrumentos potenciam a credibilidade do projecto RVCC e outros orientando os adultos para o processo certo e feito à sua medida.
- Recursos didácticos: A necessidade de criação de manuais, fichas de trabalho, instrumentos de trabalho para as equipas dos Centros Novas Oportunidades e Escolas com vista a uniformizar/normalizar a exigência e os instrumentos de trabalho.
- A formação: Os Recursos Humanos dos Centros Novas Oportunidades necessitam de formação constante. Estratégias, metodologias, trabalho com adultos são algumas das áreas. A formação associada ao projecto Novas Oportunidades também deve aumentar. Não num ideia de transformar o RVCC num "curso" mas de dotar o processo de umas horas de apoio criadas à medida dos adultos.
- Regulamentação: Existem áreas de regulamentação necessária. Quer para os profissionais, quer para os formadores. Na contagem do tempo, na contratualização, nas estratégias e avaliação.
- A avaliação: Pensamos que existe uma necessidade de atribuir uma valorização quantitativa ao trabalho dos adultos em processo RVCC de forma a valorizar o mesmo e permitir a distinção entre adultos.
- A propaganda: A publicidade em torno do Programa Novas Oportunidades deve agora incidir sobre a credibilidade do projecto. "Chamar" gente é sempre bom. Mas deve ser tido cuidado de como se "chama" e a quem se "chama" sobre o risco de desviar para este projecto um publico que não deve nele estar contido...
Com estas ideias e esta reflexão tento fazer uma análise. Só isso.
Cada vez que a crítica cresce ao processo RVCC ou ao Programa Novas Oportunidades não é a mim, enquanto avaliador externo, nem às equipas dos Centros Novas Oportunidades que ela atinge. É aos adultos. A quem depois, no terreno, não vê a credibilidade que o seu processo merece. E merece tanto como qualquer outro. Por isso, em vez das críticas gostaria de ouvir sugestões. De sentir participação com a criação daquilo que pode ainda estar incompleto. Assim valorizamos o processo e principalmente aqueles que o procuram!

3 comentários:

Anónimo disse...

Todas as boas ideias, podem ser bem ou mal aproveitadas. Na minha opinião o Processo RVCC foi uma boa ideia. Quem começa a participar no Processo e vê a categoria de alguns Adultos, a capacidade de trabalho, de aprender coisas novas, de acordar novamente para o conhecimento só pode ver neste Processo RVCC um caminho positivo. As coisas com qualidade constroem-se...
Penso, que de facto não faz sentido comparar o Processo RVCC com o Ensino Regular. Conhecer estes Adultos, concerteza iria ajudar muitos colegas ligados apenas ao Ensino Regular, a compreender ainda melhor os seus Alunos.
E há uma sensação já vivida neste Processo, que não quero deixar de partilhar, que é a alegria das crianças e adolescentes por verem os seus Pais e Avós estudarem, e poderem falar de mais assuntos em conjunto, irem à internet, trocarem conhecimento. Tudo isto vale a pena, acreditem. E vale a pena por exemplo, porque aproxima as gerações.
E o sucesso do Processo? Esse como tudo, passará pelo profissionalismo de todos os envolvidos.
Obrigada Dr. João Lima por ter despoletado esta reflexão.
M Luz

Anónimo disse...

O Portefólio Reflexivo de Aprendizagens torna-se num repositório de material científico e até reflexivo recolhido da internet colado na suposta Autobiografia.
A História de Vida vai crescendo de tal modo com esse material que acaba por desvirtuar o conceito de Autobiografia.
Não se testa conhecimentos adquiridos ao longo da vida, pois parte-se do princípio de que se tal informação consta no documento criado então é porque o adulto tem a competência adquirida.
Veja-se um exemplo em http://www.scribd.com/doc/12348763/CLC-UC6-DR-1-CASA
Aqui apresenta-se um glossário bilingue de termos relacionados com urbanismo obviamente retirado de um dicionário, com a presunção de que o adulto adquiriu competências ao nível da língua estrangeira. Nada mais falacioso!

Ana disse...

Reconhecer, validar e certificar competencias adquiridas pelo adulto mediante a sua experiencia de vida? Sinceramente não é o que envolve o processo, nem pouco mais ou menos. É lamentável a acção levada a cabo pelos formadores, pois as suas demandas encontram-se muito para além do que é adquirido por muitos ao longo da sua vida. Valorizar um adulto pela aprendizagem tida não é conduzir o mesmo a uma exaustiva pesquisa de forma a conseguir responder às multiplas questões levantadas por um dado formador. No minimo é desrespeitar o conhecimento de alguem, menosprezar a sua experiencia e leva-lo a expor conhecimentos que não são os seus, muitas vezes são copias de cópias. É isto fomentar o conhecimento? Decididamente não!
Sou licenciada e vi trabalhos de quem estava a frequentar o RVCC e sinceramente fiquei estupefacta. Solicitarem a um pedreiro que faça um estudo estatistico de como evoluirá a gripe A é ridiculo, ou o que este entende por ciclo da água... é de se ficar boquiaberto. Cheguei a ver solicitados conhecimentos que quando colocados a esses mesmos formadores, coloco as minhas reticencias se o conseguiam responder adequadamente, sim porque possuir conhecimentos profundos numa dada área, não nos torna eximios conhecedores da realidade envolvente. É vergonhoso!
Para terminar... se o que se pretendia era a aquisição de conhecimentos...teria sido melhor criar o RVCC nocturno e sob a forma de aulas... Ah..pois...assim nao dava, pois a maioria dos formadores nao conseguiriam responder adequadamente a esta demanda!
Uma boa noite para todos!