terça-feira, 19 de maio de 2009

A Aprendizagem Autodirigida.

«Para Long (1992b) a aprendizagem autodirigida é um processo cognitivo "que está dependente de comportamentos meta-cognitivos como atenção, comparação, interrogação, contraste, etc. que são controlados e dirigidos pessoalmente pelo aprendente com pouca ou nenhuma supervisão externa" (p.12). Para o autor é no aprendente que se desenrola todo o processo de aprendizagem. Tremblay e Theil (1991), consideram que os aprendentes aprendem por eles próprios, "no sentido em que aprendizagem = processo interno".

Brookfield (1984) entende que a aprendizagem "tem lugar ‘dentro do aprendente’ não na escola, e é o resultado da capacidade do aprendente que não está necessariamente dependente de uma série de interacções fixas cara a cara.". Para este autor, o resultado da aprendizagem é a mudança interna da consciência do aprendente, ou seja, a aquisição de novos conhecimentos, capacidades, comportamentos ou competências. Mas para a alteração da consciência psicológica (envolvendo essencialmente a alteração dos pressupostos do indivíduo acerca do mundo e acerca de si próprio) é necessária a interacção com os outros que são fonte de visões e perspectivas alternativas. Assim, se o resultado da aprendizagem é a mudança interna da consciência psicológica do aprendente, o que é facto é que esta mudança só se verifica após o aprendente ter partilhado e interagido com os outros: desta forma, é na inter-relação que os verdadeiros significados são alcançados.

Para Mezirow (1991) a dimensão crucial na aprendizagem dos adultos envolve o processo de justificação e validação de ideias comunicadas, e de pressupostos das aprendizagens anteriores. Estes pressupostos, assimilados na maioria das vezes de forma não crítica, podem distorcer os nossos modos de conhecer. A reflexão envolve a análise crítica destes pressupostos. A aprendizagem reflectiva torna-se transformativa quando os pressupostos, ou premissas, são vistos como distorcidos, incorrectos, e inválidos. A aprendizagem transformativa resulta num esquema de sentido novo, ou transformado. Contudo, como já foi referido, a reflexão crítica (processo interno) requer a comunicação com os outros, pois é nessa comunicação que o indivíduo se dá conta de outras perspectivas, e da desadequação dos seus esquemas de sentido, favorecendo assim a reflexão crítica.

O sentido da aprendizagem não se encontra apenas numa das vertentes (processo interno versus interacção), mas sim em ambas. A "aprendizagem pode ser usada também para referir quer o processo quer o resultado. Quando aprendizagem é usada como verbo, refere-se ao processo ou série de actividades em que o aprendente entra. Quando usada como substantivo, refere-se ao produto, reflectindo mudança ou aquisição de novos conhecimentos, o qual ocorre no aprendente." (Gerstner). Mezirow (1985) sintetiza da melhor maneira as diversas dimensões da aprendizagem, ao descrever as três funções interrelacionadas, mas distintas, da aprendizagem do adulto: Aprendizagem instrumental de tarefas orientadas para a resolução de problemas o que é relevante para controlar o ambiente ou outras pessoas; aprendizagem dialógica, pela qual tentamos perceber o que os outros desejam ao comunicar connosco; e aprendizagem autoreflectida, pela qual nos entendemos a nós próprios.»
Fonte: aqui.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Valem mais as vidas que os livros...

«Defende Cleantes a opinião de que em nada nos interessam as ideias dos homens e que acima de tudo devemos pôr o seu carácter, a honestidade e a firmeza, a independência e a lisura do seu procedimento. Se de política tratamos, Cleantes, que, por definição, é honesto, sentir-se-á muito bem representado ou muito bem governado não por aquele que, incluindo nos seus programas de eleição ou nas suas declarações ideias que perfeitamente se harmonizam com as dele, depois aparece apenas como um membro de toda a raça infinita dos que sobem por fora, mas por aquele que, tendo-o porventua irritado com a sua maneira de pensar, em seguida vem habitar a ilha minúscula dos que sobem por dentro. Se de dois candidatos que se apresentam, um está no partido contrário ao nosso mas é um honesto, seguro cidadão, e o outro se proclama correligionário, mas nos deixa dúvidas sobre a integridade moral, diz Cleantes que ninguém deve hesitar: o nosso voto deve ir para o que dá garantias de uma fiscalização séria dos negócios e não deixará que se maltrate a Justiça. Sobretudo se formos moralistas, isto é, se acreditarmos que o mundo se salvará pela moral; e, como cumpre a moralistas, se quisermos que o mundo se salve pela moral.
O mesmo acontecerá, por exemplo, nos domínios da filosofia: rio-me do estoico que usa um manto despedaçado e uma grande barba mal cuidada e vai à nona hora espreitar as damas amáveis do Foro; rio-me do pregador que não tolera a riqueza e vive num palácio, que desdenha a política e mergulha nas intrigas de Nero, que louva a paz dos campos e prefere o tumulto de Roma. E, ao contrário, darei lugar, entre os bustos domésticos, àquele Epicuro que defendeu o prazer (se defendeu o prazer), que amou a vida e desprezou os deuses, mas tão santamente procedeu e tão nobremente morreu nos seus jardins de Atenas; poria a seu lado Lucrécio, o homem de que nada sei, que adivinho, porém, austero e puro. Porque uns contribuíram com palavras e os outros contribuiram com actos; certamente, quando vier a hora de se reconhecer na palavra nada mais do que uma ferramenta, uma das muitas que serviram a erguer o edifício humano (temo que a palavra humano seja estreita), hão-de valer mais as vidas do que os livros e ninguém nunca mais se lembrará dos que apenas tiverem deixado atrás de si as páginas que escreveram.»
Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'

domingo, 17 de maio de 2009

Hoje: Corrida Novas Oportunidades

Sobre os Júris Parciais: Uma reflexão urgente.

Tenho assistido e estado presente em várias Sessões de Júri para processos de validação/certificação parcial. Tenho que destacar alguns cuidados que devem ser fundamentais para assegura que a posição do adulto está, nestes casos, sempre devidamente assegurada e devidamente respeitada na sua correcta intervenção para a construção de um percurso de qualificação pós processo.

Deixo três ideias fundamentais:

a) Os adultos ao terminarem o processo de RVCC entraram num percurso de qualificação. A certificação emitida é de um certificado de qualificações. A escolaridade inicial transforma-se num percurso novo, pelo que, as equipas devem ter em consideração este factor quando propõe o adulto, por exemplo, com um nível secundário (ex. 11.º ano) para certificação com um número de créditos reduzido. Para melhor entender é preciso reler uma das perguntas/respostas frequentes emitadas pelas ANQ: «Quando um adulto termina um processo RVCC não tendo validado todas as competências da componente de base, é-lhe passado um PPQ (Plano Pessoal de Qualificação) onde estão inscritas as UC/UFCD que ele terá que frequentar num percurso EFA para obter a qualificação total. Por exemplo: um adulto que, num processo RVCC, consegue validar 16 das 22 UC da componente de base (32 competências = 2*16), necessita de ser encaminhado para um percurso EFA para poder validar as restantes 6 UC. Nesse caso, o adulto terá de percorrer as outras 6 UC/UFCD (24 competências) em formação (300 horas), mas só necessita de validar 12 das 24 competências. Isso dar-lhe-ia 32+12 = 44 competências, ou seja o mínimo para a certificação.»

b) Os adultos precisam de um conjunto válido e útil de informação, por exemplo, sobre o funcionamento dos Cursos EFA. Muitas vezes a orientação pós-processo passa pela integração num percurso flexível de um Curso EFA e para ajudar/informar o adulto a equipa deve tornar o mais claro possível o que espera e como será feita essa integração por forma a permitir uma visão global e clara das alterações e da estruturação do novo percurso de qualificação.

c) A elaboração de um documento, o chamado Plano Pessoal de Qualificação, que para além do certificado ou dos dados do SIGO permita uma leitura complementar, para a equipa dos Cursos EFA, sobre o perfil, competências, saberes (capacidades e aptidões) do adulto, assim como, uma leitura transversal das competências validadas em processo de RVCC.

Estas reflexões, para além de serem alertas, são pontos de reflexão para as equipas e para os Avaliadores sobre como estruturar o melhor percurso e tomar a melhor decisão caso a caso.

sábado, 16 de maio de 2009

Júris, Exemplos e uma Sessão Solene...

Há, no processo de aprendizagem um factor transversal que é fundamental. Falo do tempo. Tempo para ensinar. Tempo para aprender. Tempo para pensar. Tempo para falar e para ouvir. Tempo para ler. Sem esse factor assegurado estamos longe de conseguir a consolidação de competências a médio/longo prazo.

Estive presente na primeira Sessão de Júri de Nível Secundário do Centro Novas Oportunidades da Escola Secundária de São Pedro do Sul. Para além de gostar particularmente da beleza do local, encontrei neste dia um portefólio e uma apresentação feita por um adulto que considerei excelente. Um portefólio em formato digital e uma apresentação centrada nos “saberes em acção”, na manifestação e apresentação de evidentes competências revelaram-se um momento muito positivo e muito rico de aprendizagens, reflexão e valorização da aprendizagem ao longo da vida. Foi, sem dúvida, um excelente momento que guardarei na memória.

Estive também presente numa Sessão de Júri no Centro Novas Oportunidades da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré. Tenho falado já várias vezes do trabalho realizado pela equipa deste centro pelo que, irei, destacar outro evento que teve lugar nesse dia. Tratou-se da entrega solene de Diplomas aos adultos que terminaram o seu percurso de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, quer de nível Básico, quer de nível Secundário. Um espaço cheio, com cerca de 150 pessoas, marcou um fim de dia que mostrou a importância que tem a possibilidade dada a tantas pessoas de procurarem uma certificação. Tenho por hábito e princípio não ir a estas cerimónias, sendo esta a segunda vez que o fiz. Considero que, entidades oficiais e representantes do sistema de ensino, ou, como eu, Avaliadores Externos não podem nunca entender o esforço que as equipas técnico-pedagógicas fazem, nem a relação estabelecida entre estes e os adultos, sendo que estes momentos, solenes, devem ficar para quem os conseguiu, de facto, levar a cabo. Fiquei contente, por sua vez que, o Centro Novas Oportunidades da Gafanha da Nazaré tivesse convidado elementos de empresas locais. Esta é uma mais-valia num momento de aumento de desemprego como o que atravessamos. Deixo os meus parabéns à equipa, aos adultos e à escola pelo trabalho realizado e votos sinceros de sucesso para todos os novos desafios que se seguem para cada um deles.

Deixo só uma curiosidade. No início da sessão solene de entrega de Diplomas o coro da escola cantou várias músicas. Uma dessas músicas foi esta que penso, pode ser, para todos, uma lição de vida e um ponto de reflexão.


Por último, como sempre, os meus sinceros parabéns aos adultos que terminaram o processo de RVCC nestas sessões de júri desejando que para eles, esta certificação, seja uma porta aberta para novas aprendizagens!

Um museu a Visitar: Museu do Trabalho Giacometti

«O Museu é um espaço vivo, que deverá estar em sintonia com os ritmos, desenvolvimentos e impulsos da sociedade onde está inserido. Nunca é demais dizer que o espaço museológico é um local de fruição, um local de resposta às solicitações do meio.»


«A recolha de material etnográfico registou-se no Verão de 1975, após uma instrução sumária dos métodos de pesquisa, ministrada às 31 equipas de 124 jovens, actuantes principalmente a norte do Tejo. No final do Verão os resultados obtidos, pela sua importância social e cultural, ultrapassaram as previsões mais optimista. Fez-se uma recolha de mais de 1200 alfaias, ferramentas e instrumentos utilizados nas fainas agrícolas, além de registos sonoros de espécimes de literatura popular, de fórmulas medicinais populares e cautelas supersticiosas.»

Visita virtual, aqui.

Hoje é Dia Internacional de Histórias de Vida

Veja as iniciativas a decorrer no dia de hoje, aqui.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Duas actividades: Boas-Práticas

Tenho acompanhado algumas actividades organizadas por vários Centros Novas Oportunidades e escolas no âmbito do Processo de RVCC e Cursos EFA. Deixo dois desses momentos/actividades que podem tornar-se ideias a implementar noutros momentos e noutras entidades...
Clique aqui para saber mais.

«Os Formandos do curso EFA, turma C, têm a honra de convidar V/ Exa. a participar no convívio multicultural que se realizará no dia 28 de Maio de 2009, pelas 19h30m, na Escola Secundária com 3º Ciclo de Pombal

E, o Centro Novas Oportunidades do Agrupamento de Escolas de Maceira organiza, com especialistas, uma explicação/informação/formação para as diferentes áreas do Referencial de Competências-Chave para o RVCC de Nível Secundário. Aqui fica o programa.
Apresentao Referencial Apresentao Referencial jo_eca@hotmail.com

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"A Educação e Formação de Adultos em Contexto Prisional"


«A equipa técnico-pedagógica do Agrupamento Vertical de Escolas Augusto Moreno em conjunto com o Estabelecimento Prisional Regional de Bragança vão realizar, no próximo dia 22 de Maio, o II Ciclo de Conferências subordinado ao tema: "A Educação e Formação de Adultos em Contexto Prisional - Educar para a Saúde", nas instalações daquele estabelecimento prisional. Esta iniciativa surge no âmbito do trabalho desenvolvido pela equipa técnico-pedagógica daquele agrupamento que lecciona no Estabelecimento Prisional Regional de Bragança o Curso do 3º Ciclo de Educação e Formação de Adultos (EFA-B3).
Os promotores deste evento têm como objectivo concretizar uma, ainda melhor, articulação entre as duas instituições que interagem em matéria de formação de adultos. Paralelamente, pretendem promover boas práticas de saúde numa abordagem cada vez mais eficaz a um melhor combate a patologias que, normalmente, assolam esta camada populacional, nomeadamente, entre outras, doenças infecto-contagiosas, adições e psicopatologias.
Tal como no I Ciclo de Conferências, realizado em Abril de 2008, estas jornadas, para além da comunidade reclusa, contarão com o contributo de um variado leque de conferencistas, entre os quais, formadores, docentes universitários, especialistas nas áreas da Educação, Saúde, Justiça e Serviços Prisionais, bem como convidados da sociedade civil.»
Mais informações aqui.

O que é o Saber de uma Vida?

As Histórias de Vida são instrumentos de aprendizagem para uma memória colectiva. Memória essa que, se não for registada, só a História a poderá, parcialmente, recuperar... Aqui fica uma dessas vidas partilhadas, um desses saberes a revisitar...


quarta-feira, 13 de maio de 2009

A História de Vida e o Balanço de Competências

«O relato por parte do formando da sua História de Vida e respectiva reflexão sobre o seu percurso de vida, vai levá-lo, juntamente com os professores à metodologia do Balanço de Competências, que se trata de um dispositivo epistemológico com funções de diagnóstico e de avaliação de competências mobilizadas ou desenvolvidas com os adquiridos na vida de cada um, evidenciando as interacções das competências em várias esferas da vida do ser humano: a) conceptual, b) de relacionamento e comportamento humano, c) práticas concretas.

Neste contexto, o Balanço de Competências constitui uma démarche de auto e hetero-avaliação que faz emergir uma representação de si revelada nas dimensões de vida pessoal, social e profissional de cada aluno adulto. Entrar num processo de Balanço de Competências supõe um forte envolvimento dos implicados na construção e monitorização do seu desenvolvimento e um olhar sobre as experiências vividas, (re) dizê-las para se apropriar delas.

Desde sempre, a pretensão do Balanço de Competências visa o reconhecimento dos saberes práticos, dos conhecimentos tácitos adquiridos por experiência. Enquanto acto voluntário requer a exploração, a análise de saberes, expondo competências na perspectiva da construção de projectos de vida pessoais e profissionais no percurso singular dos candidatos. Parafraseando Castro , o Balanço de Competências visa implicar o sujeito na constituição de uma carteira pessoal dos saberes em acção, coligindo evidências desse itinerário, procurando formas (reconhecidas) de validar essas competências, valorizando explicitamente percursos trilhados e potenciando a motivação necessária para desenvolver voluntariamente novas aprendizagens.

Se as Histórias de Vida conduzem ao Balanço de Competências, o Balanço de Competências, por sua vez, é materializado no Portefólio Reflexivo de Aprendizagens (PRA). Com efeito, o PRA dos alunos é um documento que se articula e decorre das Histórias de Vida e do Balanço de Competências.

É uma combinatória de documentos vários (de natureza textual ou não) que revela o desenvolvimento e progresso na aprendizagem, explicitando os esforços relevantes realizados para alcançar os objectivos acordados. É representativo do processo e do produto de aprendizagem. Documenta experiências significativas e é fruto de uma selecção pessoal.

Na realidade, o paradigma que está subjacente à utilização de um portefólio é de uma filosofia de aprendizagem, baseada num processo de investigação; acção ; formação. Supõe o desenvolvimento de um perfil de competências meta-cognitivas e meta-reflexivas, sobre o próprio conhecimento, que nele se procura evidenciar, demonstrar.»
Fonte: aqui.

terça-feira, 12 de maio de 2009

O processo RVCC: Individual

Queria partilhar neste espaço uma ideia que me tem acompanhado e que resultou recentemente de um alerta que me foi lançado. A comparação do trabalho entre centros, modelos de intervenção e metodologias, percursos e recursos é uma realidade que emerge, muitas vezes, da implementação de um processo que, pela sua (ainda) necessidade de reconhecimento leva, muitas vezes, a uma reflexão que se centra nas vivências pessoais, mais do que, na lógica institucional ou transversal. Assim, muitas vezes, fora de um contexto que nos é desconhecido, tendemos a tecer considerações ou observações sobre um percurso, um recurso ou um trabalho sem podermos analisar a fundamentação da sua realização naquela forma. Isto passa-se muitas vezes entre os adultos que, por considerarem que, ao consultarem um Portefólio de outra pessoa que se encontra em processo, quer no próprio centro quer em centros diferentes, tende a fazer uma comparação imediata entre processos (no que diz respeito à duas organização, exigência e/ou qualidade). No entanto há dois alertas que urge fazer:

1. Uma das características do processo de RVCC passa pela sua individualidade/personalização o que torna incomparáveis cada um dos percursos, estratégias, solicitações e resultados finais de cada um dos adultos. Se juntarmos a esta característica o factor de adequação/flexibilidade que os referenciais permitem temos essa realidade que é necessário transferir para os adultos, no que diz respeito, aquilo que se pode resumir na velha máxima de “cada caso é um caso”.
2. Que um processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências que assenta numa metodologia de História de Vida resulta sempre numa diversidade entre casos em processo e não numa uniformidade.

Sinto que, no que diz respeito aos Centros Novas Oportunidades e à comparação do trabalho entre si esta questão está a ser superada pela estratégia de criação de redes de cooperação. Uma das mais-valias que tenho encontrado nos Centros é a sua abertura à partilha de experiências quando promovidas numa ambiente de rede de trabalho. Acompanho actualmente duas redes criadas, a Rede MAPA e a Rede TEIA e o que começou tenuemente com uma simples reunião entre centros é hoje um local de visita e troca de ideias, recursos e soluções. Para as equipas dos Centros Novas Oportunidades é cada vez mais claro que diferentes contextos levam a diferentes soluções e como tal a comparação desaparece dando lugar à cooperação para resolução de situações em contexto próximos e identificados. 
Quando estas realidades não existem, por um motivo ou outro, cabe aos Avaliadores Externos, Directores e outros diversos actores promover uma estratégia de harmonização entre actuações de forma a conseguir essa mesma cooperação. Deixamos dois pontos de partida que, pela experiência vivida por mim, podem ser pontos fundamentais para o reconhecimento do trabalho entre Centros Novas Oportunidades:

1. O convite para a participação/assistência de sessões de júri entre centros na mesma área geográfica ou em outras com o objectivo de partilha de práticas e abertura de uma ponte de diálogo. Muitas vezes o primeiro passo pode/deve ser dado pelo Avaliador Externo.

2. O convite para reuniões conjuntas moderadas por uma entidade comunitária ou por uma personalidade de interesse. Estas sessões, com um reduzido número de participantes (geralmente os elementos das equipas de dois ou três centros) funcionam como mobilizadores de uma primeira abertura no conhecimento entre equipas e no reconhecimento dos modelos de trabalho.

Pensamos que, como já referimos anteriormente, a construção do reconhecimento social do processo de RVCC passa muitas vezes pela identificação de pontos fracos ou a desenvolver e não pela ocultação dos mesmos. Para responder à melhoria desejada e sempre contínua consideramos ter deixado, neste texto, algumas ideias e uma ou outra reflexão que podem ser pontes de ligação entre os problemas e as soluções, todos eles resolvidos por via de um processo de colaboração e cooperação entre pessoas.

A Metodologia: História de Vida, o que é?

«A história de vida é uma das modalidades de estudo em abordagem qualitativa. O termo História de Vida, traduzido de historie (em francês) e de story e history (em inglês), tem significados distintos. O sociólogo americano Denzin propôs, em 1970, a distinção das terminologias: life story (a estória ou o relato de vida) é aquela que designa a história de vida contada pela pessoa que a vivenciou. Nesse caso, o pesquisador não confirma a autenticidade dos factos, pois o importante é o ponto de vista de quem está narrando. Quanto à life history (ou estudo de caso clínico), compreende o estudo aprofundado da vida de um indivíduo ou grupos de indivíduos. Inclui, além da própria narrativa de vida, todos os documentos que possam ser consultados, como dossiês médico e jurídico, testes psicológicos, testemunhos de parentes, entrevistas com pessoas que conhecem o sujeito, ou situações em estudo. Assim, a história de vida trabalha com a estória ou o relato de vida, ou seja, a história contada por quem a vivenciou. No relato de vida o que interessa ao pesquisador é o ponto de vista do sujeito. O objectivo desse tipo de estudo é justamente apreender e compreender a vida conforme ela é relatada e interpretada pelo próprio actor. Assim, o método de história ou relato de vida “tem como consequência tirar o pesquisador de seu pedestal de “dono do saber” e ouvir o que o sujeito tem a dizer sobre ele mesmo: “o que ele acredita que seja importante sobre sua vida”
Por meio do relato de Histórias de Vida individuais, podemos caracterizar a prática social de um grupo. Assim, “toda entrevista individual traz à luz directa ou indirectamente uma quantidade de valores, definições e atitudes do grupo ao qual o indivíduo pertence”
O método de história de vida, portanto, procura apreender os elementos gerais contidos nas entrevistas das pessoas, não esquecendo, contudo, analisar suas particularidades históricas ou psicodinâmicas. Nesse sentido, histórias de vida, por mais particulares que sejam, são sempre relatos de práticas sociais: das formas com que o indivíduo se insere e actua no mundo e no grupo do qual ele faz parte.
Uma narrativa tem uma função descritiva e avaliadora pois, quando relatamos um facto, na verdade, estamos a ter a oportunidade de reflectir sobre aquele momento. Uma vez que “o sujeito não relata simplesmente sua vida, ele reflecte sobre ela enquanto conta”. Nessa abordagem, o pesquisador respeita a opinião do sujeito e acredita no que diz. Dessa forma, quem faz a avaliação não é o pesquisador, e sim o sujeito (...) o pesquisador e o sujeito completam-se e modificam mutuamente em uma relação dinâmica e dialéctica.
O método de História de Vida ressalta o momento histórico vivido pelo sujeito. Assim esse método é necessariamente histórico (a temporalidade contida no relato individual remete ao tempo histórico), dinâmico (apreende as estruturas de relações sociais e os processos de mudança) e dialéctico (teoria e prática são constantemente colocados em confronto durante a investigação).»
Fonte: aqui.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Histórias de Vida: a Pessoa.

«A pessoa produz uma História de Vida que, por sua vez, produz a pessoa:

Esta afirmação aponta para uma perspectiva dinâmica da própria abordagem das Histórias de Vida. De algum modo, ao fazer, ao narrar, a construir a sua história de vida, o sujeito constrói e reconstrói o seu passado e, nessa construção, potencializa e abre o futuro a projectos possíveis múltiplos.
Uma das questões que coloco é a seguinte: como construir e reconstruir esse passado? Proporcionando contextos para a expressão espontânea da narrativa, deixando toda a iniciativa ao sujeito? Ou procurando trabalhar/activar a memória, trabalhando ao nível da rememorização, introduzindo pistas várias? E qual a natureza dessas pistas? Ou deverá antes fazer-se as duas coisas?
Esta questão da memória parece-me importante se queremos afastar-nos dum registo marcado pelo fortuito e/ou ocasional. A memória permite tornar presente aquilo que, mantido no esquecimento, se torna, afinal, inexistente. Ora, quanto mais "rico" for o todo da história de vida, mais ficaremos elucidados sobre nós próprios, reconhecendo incidências, identificando motivações, levantando problemas, decifrando influências, desvelando o modo próprio de olhar, ouvir, estar, sentir, reagir, que sustentam o nosso modo de agir e de ser. E os eixos norteadores e que emergem da história de vida permitem não só a compreensão de si próprio como a melhor compreensão do modo como "lemos" e nos "apropriamos" daquilo que nos é dado, com que vamos sendo confrontados e com que projectamos o futuro.»
Fonte: Maria do Loreto Paiva Couceiro

domingo, 10 de maio de 2009

Saber e Aprender...

Um dos maiores desafios da escola actual passa pela valorização da capacidade individual de cada aluno desenvolver em si uma consciência que os saberes que adquiriu no seu percurso escolar são saber em transformação e que requerem novas aprendizagem para a sua consolidação, renovação, reestruturação e actualização e que esta exigência se vai repetir várias vezes ao longo da vida.
No ensino Básico, Secundário e agora no Ensino Superior (com a entrada em vigor do famoso Processo de Bolonha) a formação de base é pensada como a construção de um conjunto de saberes iniciais a desenvolver em percursos de vida e percursos profissionais que enriqueçam e consolidem essas aprendizagens primárias.
Surge assim, cada vez mais interligado com essa formação escolar ou académica uma visão de complementaridade com uma caminhada contínua de aprendizagem ao longo da vida.
É aqui que existe uma necessidade fundamental de mudança de paradigma em Portugal. Temos assistido nos últimos anos à ideia que a posse de um curso de nível superior é visto como o fim de uma caminhada que leva, consequentemente em desejo, ao reconhecimento social e profissional de quem o detém. Mas os tempos mudaram e em consequência o número de desempregados em Portugal atinge grandemente quem possui mais habilitações. Por outro lado, e para compensar este facto, muitos licenciados procuram reforçar ainda mais a sua formação académica de base frequentando mestrados e doutoramentos. Á saída dos mesmos a situação inicial mantém-se. 
É assim preciso mudar em função dos vários percursos que o mercado, a sociedade, a inovação e os tempos procuram como válidos para o reconhecimento das competências pessoais de cada um de nós.
Há que pensar a dimensão da aprendizagem em três campos distintos nos dias que correm. Por um lado a referida formação de base. A formação teórica representa como o saber teórico, um dos pilares mais importantes no desenvolvimento de competências ao longo da vida. O Conhecimento, visto como fonte sustentada de reflexão, produção de saberes estruturantes e prospectivos funciona como o motor de toda uma formação inicial. Esta é a componente onde a Escola tem o seu papel fulcral.
Mas uma das componentes da formação individual que muitas pessoas esquecem é a componente de formação profissional. A verdade é que, a formação profissional em Portugal tem tido, nos últimos anos, um desenvolvimento muito pouco sólido e muito pouco desenvolvido para e em função das competências e do mercado de trabalho. A introdução de um Catálogo Nacional de Qualificações, como o actual em vigor, vem mudar o sistema em vigor para as orientações, falta aferir se também as práticas, de facto, mudarão. Mas a formação em áreas profissionais e com objectivos de desenvolvimento de conhecimentos e capacidades práticas são tão fundamentais como o conhecimento teórico que as sustenta. Hoje, muitos ainda consideram que desta formação não resulta uma mais-valia fundamental pois a encaram como uma secundária forma de aquisição de saberes. Tal não é verdade, assim como, quanto mais ricas e diversificadas forem as experiências de formação profissional mais competências e visões práticas sobre as diferentes realidades pode cada de nós ter.
Por fim, existe ainda um campo que é sempre negligenciado ou desvalorizado. O da auto-formação ou o campo das aprendizagens informais. Tão importante como as anteriores a aprendizagem individual, pela leitura, conversa/partilha, pela reflexão, pela consulta ou assistência de eventos, encontros, espaços de aprendizagem, assim como, auto-reflexão são fundamentais para a produção de um conhecimento individual, próprio, que associado à criatividade, à inteligência e à vontade de produção de novas ideias e novos conceitos resulta num ganho e mais-valia fundamentais para a construção de um percurso pessoal de aprendizagem sólido, rico e relevante.
Fica pois o desafio. Pensar e repensar estes três percursos numa relação entre Saberes e Aprendizagens, desenhando o seu caminho para uma efectiva Qualificação e para um futuro sólido a nível pessoal e profissional. Pensar estes caminhos é pensar hoje um futuro que é já uma realidade presente.
Artigo publicado pelo autor.

Convite à Participação: Dia Internacional de Histórias de Vida

Relembro hoje que até ao próximo dia 15 de Maio, sexta-feira, será possível aos Centros Novas Oportunidades e aos adultos interessados participarem no Dia Internacional de Histórias de Vida. Vale a pena partilhar um pouco do que somos e aprendemos ao longo da vida nesta iniciativa que deseja ser uma ponte e um ponto de partida para o reconhecimento da importância da Aprendizagem pela Experiência. Esta iniciativa tem o apoio, entre outros, da ANQ, Museu da Pessoa e Produções Fictícias.
Para mais informações basta clicar na imagem.


sábado, 9 de maio de 2009

Júris, Encontros e Desafios...

Hoje, como sempre, a consolidação de um projecto passa pela formação de equipas de trabalho cooperantes e motivadas para um trabalho de qualidade e reconhecimento social. Hoje, como sempre, o trabalho desenvolvido pelas equipas técnico-pedagógicas dos Centros Novas Oportunidades é uma peça fundamental numa estratégia de Educação e Formação de Adultos reconhecida pela sua mais-valia no contexto educativo. Sem dúvida que uma das melhores experiências que tenho no âmbito da Iniciativa Novas Oportunidades é o privilégio de trabalhar com pessoas dedicadas, excelentes profissionais e com uma capacidade de entrega e trabalho que vai muito para lá do que lhes é pedido numa tentativa sempre constante de melhorar a prática e valorizar a aprendizagem.

Estive presente numa sessão de júri do Centro Novas Oportunidades da Escola Secundária da Gafanha da Nazaré. Foram momentos muito interessantes pela dinâmica e importância que tiveram no meu contexto pessoal e para a equipa. O resultado de uma análise do trabalho realizado quando o é com qualidade, como é o caso, resulta de uma abordagem de reflexão em diferentes momentos. Este foi um desses momentos em que, pelas apresentações realizadas e pelo perfil ideal dos candidatos a um processo de RVCC, toda a sessão de júri se reverteu num efectivo reconhecimento das competências num processo de aprendizagem entre todos os elementos presentes. Quando assim é, quando nessa troca de experiências e histórias de vida se reconhece a importância da aprendizagem ao longo da vida então o reconhecimento social está conseguido na sua forma mais relevante: a valorização da formação e aprendizagem para cada um dos adultos. Os meus sinceros parabéns aos adultos pelo trabalho realizado e pela conclusão de mais esta etapa na sua vida.

E na passada sexta-feira, dia 8 de Maio, estive presente, como organizador e participante do "Encontro Informal RVCC e Aprendizagem ao Longo da Vida: Desafios Radicais". Foi um encontro que juntou 50 pessoas. O número inicial de inscrições foi muito superior o que leva a que venham a realizar-se, em datas próximas, mais dois destes momentos. Estiveram presentes elementos das equipas técnico-pedagógicas, de Directores/as a Administrativos/as, de Norte a Sul do país.


No início do dia foram distribuídas 10 questões que para orientação das conversas a realizar ao longo do dia. Estas questões foram as seguinte:

1. Se tivesse de explicar o que era o processo de RVCC para o nível Básico em duas frases como o faria?
2. Se tivesse de explicar o que era o processo de RVCC para o nível Secundária em duas frases como o faria?
3. Se tivesse de explicar a sua função no âmbito do trabalho de um Centro Novas Oportunidades como o faria?
4. Se tivesse que explicar o que é um Portefólio Reflexivo de Aprendizagens como o faria?
5. Se tivesse que identificar 5 desvantagem do processo de RVCC quais enunciaria?
6. Se tivesse que identificar 5 vantagens do processo de RVCC quais seriam?
7. Se fosse "decisor" que medida alterava para reforçar o reconhecimento social do processo de RVCC?
8. Se tivesse que descrever o trabalho que realiza por meio de uma metáfora qual seria?
9. Que história ou momento mais relevante pode contar da sua experiência nos últimos tempos como elemento de uma equipa de um CNO?
10. O que aprendeu até este momento neste encontro informal?

Curioso foi reparar que, assim que se iniciaram as actividades mais “radicais” se esbateram os “desconhecimentos” entre pessoas, entre equipas e a troca de experiências, conversas, ideias e registos de informalidade tiveram lugar.

Este foi essencialmente um momento de interacção pessoal e de reforço do espírito de equipa. Espero que todos os participantes tenham gostado deste dia e mantenham, no seu dia-a-dia a boa disposição e dinamismo que observei neste encontro.

Ficam as imagens do dia nas fotografias que podem ser consultadas ao clicar na colagem de fotos apresentada em cima. Fica também uma palavra de agradecimento à equipa de monitores e organização da Transserrano pelo dinamismo e profissionalismo com que decorreram as actividades.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

"Encontro de Culturas: Ouvir para Integrar" 21 a 24 Maio 2009

«Integrado nas comemorações do 25º aniversário da AMI e em parceria com a Fundação Academia Europea de Yuste de Espanha, estas instituições vão realizar de 21 a 24 de Maio de 2009 em Lisboa, nas instalações cedidas pelo ISCTE, o primeiro “Encontro de Culturas – Ouvir para Integrar”.

Estão já confirmadas as presenças de João Gomes Cravinho, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Mário Soares, Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e o Diálogo Intercultural, Manuel Jarmela Palos, Director Nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), João César das Neves, João Paulo Oliveira e Costa, Director do Centro de História de Além Mar da Universidade Nova de Lisboa, Luísa Maia Gonçalves, Inspectora Superior do SEF, o Presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, José Oulman Carp, o Presidente da Comunidade Budista de Lisboa, Paulo Borges e o pintor Lívio de Morais.

Este encontro, que se realizará, pela primeira vez, em Portugal (Lisboa), repetir-se-á periodicamente e alternadamente em Espanha e Portugal.
Mais do que nunca, impõem-se estes encontros, como as duas Fundações estão convictamente crentes, se pretendermos construir um mundo de concórdia e de entendimento, só possível com a edificação de múltiplas pontes de diálogo entre as diferentes culturas e religiões existentes no nosso planeta e, porque não um dia, no nosso universo.»
Fonte: aqui.

Informações e inscrições aqui: Ouvir para Integrar

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Observação Participada: Para além do RVCC.

Recentemente referi neste espaço um desafio sobre a minha potencial  realização do processo de RVCC. Recebi vários e-mails e comentários o que considerei muito interessante pela reacção e troca de ideias gerada. Muitos assentavam na ideia do facto de eu, conhecendo o processo ir retirar desta experiência uma observação imparcial. Adiado que está esse desafio foi, no entanto, muito positivo para eu lançar neste espaço uma reflexão sobre uma metodologia de trabalho que é do conhecimento de muitos e que pode ser um excelente instrumento de auto-avaliação do trabalho dos Centros Novas Oportunidades (e é bom lembrar isto agora que a auto-avaliação - num "novo" modelo - está a ser apresentado aos centros). 

Aqui ficam as ideias fundamentais da "Observação Participada".

«A observação participante é uma metodologia elaborada principalmente no contexto da pesquisa antropológica. Trata-se de estabelecer uma adequada participação dos pesquisadores dentro dos grupos observados de modo a reduzir a estranheza recíproca. Os pesquisadores são levados a compartilhar os papéis e os hábitos dos grupos observados para estarem em condição de observar factos, situações e comportamentos que não ocorreriam ou que seriam alterados na presença de estranhos. Foi MALINOWSKI (1978) quem sistematizou as regras metodológicas para a pesquisa antropológica: a ideia que caracterizava o método era a de que apenas através da imersão no quotidiano de uma outra cultura o antropólogo poderia chegar a compreendê-la.

Ou seja, um dos pressupostos da observação participante é o de que a convivência do investigador com a pessoa ou grupo estudado cria condições privilegiadas para que o processo de observação seja conduzido e dê acesso a uma compreensão que de outro modo não seria alcançável. Admite-se que a experiência directa do observador com a vida quotidiana do outro, seja ele indivíduo ou grupo, é capaz de revelar na sua significação mais profunda, acções, actitudes, episódios, etc... que, de um ponto de vista exterior, poderiam permanecer obscurecidas ou até mesmo opacas.

Assim, o antropólogo deveria passar por um processo de transformação através do qual ele, idealmente, tornar-se-ia um nativo. No entanto, na medida em que essa experiência não é sistemática, o antropólogo deveria reelaborá-la, transformando-a numa descrição objectiva (científica?) da cultura. O resultado desta "transformação" consiste no texto etnográfico, onde o antropólogo apresenta uma re-elaboração de suas experiências.»
Fonte: aqui.